afirmação

27 jan

‘caminhariam vida afora e para além da vida com o mesmo passo determinado que mal se dá conta do penhasco logo à esquerda’ [bonequinha de luxo, truman capote]

 

a madrugada era o momento mais sincero do dia. eu aproveitava o Estado de embriaguez para obedecer as Leis que o regiam: o silêncio em forma de riso curvado pra trás, a conversa guiada pelo nível degrau e o sinuoso caminho – apesar do escape ser em linha reta.

nesses fragmentos eu me segurei desajeitadamente, e não conseguia voltar ao lugar. isso foi engraçado: igual joão bobo, mas que o só vai e ..

..na volta me acompanhou um escape. deixei para trás metade dos fatos, um terço do que deveria deixar-se completo esquecido. para além das vogais abertas, beijos duplicados e jeito calado, me apeguei aos menos e mais: palavras pela metade e ois com sabor de broa e café.

os dias me arrastaram por esses completos e em tatuagem fincaram: felicidade não é questão, é afirmação de ser.

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pele

26 jan

‘não parecia um ser humano, era uma fagulha’.
[a pele que habita]

não me apague em rastros da sua promessa.
não me reconheça por qualquer ruído.
não se faça casto ao escasso que lhe resta.
gaste o seu apego (o seu sacrifício).
se lhe tive fogo e me força à cinza,
não dispensa em sopro o amargo que habita.
pensa (com)sentido impôr essa faísca,
não faça silêncio como falsas rimas.

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condutor

25 jan

não era frio, apesar do silêncio.
nenhuma palavra pronunciada naquele vazio.
tal como mármore, sabe fazer-se o melhor traçoeiro em meio aos anseios da outra:
por ora, arde, se algo à parte, em seu aconchego, esquenta tal como pede.
em outra, parte -
deixa que acabe o sabor da certeza:
morre-se em palavras frias.

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esquadrias*

25 jan

*sf pl designação genérica de portas e janelas, com seus batentes e folhas, necessárias a uma construção.


sotaques falam por si um tom que emana maior:
gritam a origem acentuada ao acaso.
se multiplicam esquadros
a cada verso que falo.

fôssemos milimetrados por vozes,
não terras,
o côro seria sorriso,
não mais haveria ocaso.

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somos todos memória¹

3 set

‘os últimos vinte minutos foram os melhores anos da minha vida’ [golias - coisas frágeis 2, por neil gaiman]
‘we forget how fragile we are’ [fragile, por sting]
‘somewhere down, down in the ocean of sound, we’ll live in slow-motion’ [doors unlocked and open, por death cab for cutie]

——-

o ônibus soltou as rédeas
e o ar gélido passou pelas frestras
em tom sorrateiro.
eram almas rasantes e, em poucos minutos,
somaram-se ao vazio de antes.

o ônibus soltou as rédeas
e o ar gélido passou pelas frestras
do meu casulo.
era um pousar em meus olhos no escuro,
onde só eram brilho a emergência
e o suspiro de ansiedade para chegar.

saltei meio insone naquele intervalo,
olhos marejados,
semblante deserto, e ainda sem conseguir respirar
um ciclo completo de ar
sem uma lágrima a interrompê-lo.

saltei meio insone naquele intervalo,
os olhos cansados,
contraste ao sentir palpitado
o ritmo intenso da veia apressada,
e senti à imagem d’oliva que o afastamento é relativo
e cada rever é eterno.

tentei encontrar a melhor posição
pra rememorar as lembranças
e imaginei que o espaço apertado
era mais que metáfora ao meu desespero.

tentei escolher a melhor saudação
pra reencontrar os abraços
e sei que os dias passaram mais lentos
pra recompensar esses lapsos.

voltei a seguir os passos insones
que só me conformam quando meus sentidos
são atordoados o forte bastante
para apagar as memórias, por mínimo instante,
de ‘quem’ e ‘o ques’ me serenam e guiam:
completos.
distantes.

——-

¹sempre retrato viagens, em seus reencontros e despedidas, assim descritos nessas minhas margens de hoje: pela primeira vez, uni as duas mãos do translado, aquele que fiz à Viçosa-MG há um mês. o título, trecho de um conto de Neil Gaiman, soou ideal.

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lead, lara.

2 set

quando o espelho não soa invertido – é de olhar o oposto, mas escutar o chamar duplicado em um.

onde encarar qualquer rosto não traz nem brilho, nem força, tampouco o multiplicar de sentidos daquele sorriso.

como explicar o espontâneo, a graça, o intenso e o puro agregrar-se amigo?

o que responde é a dimensão com que encara um dia-a-dia de abraço e abrigo.

porque é forte tal qual se mostra em qualquer segundo vivido, sentindo que nada atinge quem seja, acima de tudo, sorriso.

 

para a xará. saudosa.

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exposta

28 ago

foto: karina delgado

por estar-se entre outras linguagens e mostrar-se aos diversos sentidos além de telas binárias e olhares restritos: é de sentir-se exposta da melhor maneira e pelo meio mais puro e sincero possível .

há uma semana exata, compartilhei o orgulho por fazer parte da exposição em ‘varal da arte’ de mais uma Noite Independente de Poços de Caldas-MG, a Noite Fora do Eixo organizada pelo Coletivo Corrente Cultural. mais ainda, por estar entre imagens transformadoras, por lente de Izabel Pompermayer.

a emoção nos sentidos me veio já em palavras pré-exposição:

‘A baianidade de Lara, ora misturada pelo seus anos em Minas Gerais, ora pela sua atual residência paulistana, junta-se à personalidade poética e independente da escritora e jornalista; o resultado são textos de temas supreendentes que prendem a atenção de qualquer leitor.’
[por Renan Moreira]

foto: karina delgado

a completar os sorrisos, os depoimentos de quem, ao vivo, presenciou e notou comentários [ka delgado, artista que revelou-se nessas duas fotos].

o finalizar de sentidos aconchegou-se na Noite e reverberou por mais expressões em resenha:

‘Os textos poéticos e intimistas de Lara prendem a atenção do leitor, que se sente acolhido através de suas palavras.’ [Nathalia Carvalho]

e de sentir-se acolhida a tomar toda ação coletiva em abraço, deixo-me exposta, além do poema, em amplexo grato.

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voo: paisagem

26 ago

ainda há derrames de veias abertas
e cada artéria se expande em busca da sua saída,
vazão esquecida por seus habitantes
- é de se pensar como um organismo doente que se transformou, tal qual vírus,
em busca da cura.

 

 

*é de um contraste cinzento olhar o concreto paulista e depois, pelo ar, enxergar a chegada aos ilhéus. a inspiração vem daí, onde há rios disputando o espaço..

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voo: direção

24 ago

você bloqueou o que desassossega e desnorteou o que era incerto – quem sabe não se consertou, por acaso, o vão que lhe salta aos olhos e crases, os seus sustenidos e graves de notas dispersas?

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voo: sentido

24 ago

ali, será sempre silêncio e sol, e qualquer superfície que o refletir será arco e será olhos.
seu mundo deixou o correr dos segundos para respirar entre o vácuo e o vazio..
e ver-se em leveza de asas tocar o distante.

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